Pensar como os antropos: magia-religião, ciência e senso comum
Autor: Felipe de S.P
Há três lógicas de
pensamento humano muito conhecidas, a mágico-religiosa, a científica e o senso
comum, e, embora a base de formação seja a mesma, o conhecimento, diferem quanto
à maneira de construí-lo. E é a explicação de suas particularidades o assunto
principal dessa postagem. Claude Lévi-Strauss, antropólogo francês, em sua obra,
intitulada, “O pensamento selvagem”, precisamente, em seu primeiro capítulo, “A
ciência do concreto, examina bem a distinção entre as duas primeiras, e é a fonte
utilizada aqui para pensa-las, já o último tipo, o senso comum, terá sua
argumentação conduzida a partir das teorizações da antropologia de viés
interpretativo de Clifford Geertz, exatamente, estruturada no capítulo “O senso
comum como um sistema cultural”, componente do livro “O saber local: novos ensaios
em antropologia interpretativa.
Seguindo a proposta de Claude Lévi-Strauss, a ordenação
do mundo constitui o suporte de toda forma de pensamento e, sendo a natureza
composta por um número finito de elementos em diferentes combinações (átomos, moléculas e assim por diante, formando vida animal, minerais e
etc), não é
errado admitir que ela se deixa abordar e ser classificada, embora essa categorizações
possa se dar de várias formas. Todavia, é, justamente, o modo como a natureza
pode ser abordada, o ponto crucial de diferenciação entre o pensamento
mágico-religioso e a ciência moderna. Mesmo que a primeira possa, em alguns
casos, encontrar uma orientação verdadeira em razão das possibilidades finitas
da natureza, o pensamento mágico-religioso está inclinado ao determinismo global
e integral (exemplo, deus fez todas as coisas, logo elas estão a serviço de seus objetivos), isto é, criar uma explicação em que todas as coisas estejam
interconectadas umas às outras, ao contrário da ciência que opera na distinções
de níveis “dos quais apenas alguns admitem formas de determinismos tidas como
inaplicáveis a outros níveis” (LEVI-STRAUSS, 1989, p.26). Um exemplo torna essa
questão mais compreensível, enquanto os cientistas repartem-se em Ciências
Naturais, Ciências Sociais e Ciências Biológicas, nos quais os fenômenos,
embora possam ser relacionados, inscrevem-se em escalas diferentes, os mágicos
e religiosos, pesquisando a partir de princípios teleológicos (isto é, há um objetivo final para todas as coisas), tratam o mundo
natural e social como parte de um todo, cujas propriedades são permeáveis, como
podemos observar nos trabalhos de um coaching quântico, de um terraplanista e de
um criacionista. E como isso é realizado? Bem, o pensamento mágico-religioso
aborda a natureza e o mundo social a partir da experiência com o sensível, ou
seja, o que pode ser visto, ouvido, tocado e sentido, e através do acumulo
dessas informações aumenta o seu escopo de conhecimento sem, entretanto,
desfazer-se dos erros, igual fazem os cientistas, pois, se tudo está encadeado,
uma descoberta deve ser encaixada na explicação por meio de seu reordenamento.
Enquanto o cientista, embora também precise fazer um inventário do conhecimento
já disposto, procura sempre abrir uma passagem além dele, no qual os
equipamentos, microscópios e telescópios, por exemplo, constituem meios
possíveis para isso: “poder-se-ia, portanto, dizer que tanto o cientista quanto
o bricoleur [ o agente do pensamento mágico-religiosos] estão à espreita de
mensagem, mas, para o bricoleur, trata-se de mensagens de alguma forma
pré-transmitida e que ele coleciona: como os códigos comerciais que, condensando
a experiência passada da profissão, permitem enfrentar economicamente todas as
situações novas (porém com a condição de que elas pertençam à mesma classe que as
antigas); já o homem da ciência, engenheiro ou físico, antecipa sempre a outra
mensagem que poderia ser arrancada a um interlocutor, apesar de sua relutância
em se pronunciar a respeito de questões cujas respostas não foram dadas
anteriormente” (LÉVI-STRAUSS, 1989, p.35).
Em uma sociedade como a nossa, destacada por sua
heterogeneidade, esses dois tipos de conhecimento ajudam a construir o senso
comum, definindo o que é considerado bom-senso. O bom-senso é “uma interpretação
da realidade imediata, uma espécie de polimento desta realidade, como o mito, a
pintura, a epistemologia, ou outras coisas semelhantes” (GEERTZ, 2014, p.80),
pautada em conjuntos, mais ou menos, plurais de entendimentos, por exemplo,
beber álcool demais leva à ressaca, os cientistas explicam as razões disso e os
cristãos elaboram motivos morais para não fazê-lo, se alguém, mesmo sabendo
disso, bebe além da conta pode ter sua ação julgada como não sendo de bom-senso
a partir de ambas argumentações e até por meio da mistura de ambas. O tipo de
pensamento que chamamos de senso comum opera, assim, articulando diferentes
dados para responder questões cotidianas, por exemplo, quando um estupro
ocorre, não se busca a razão, mas qualifica-se a ação da vítima e do agressor a
priori, como é normal ouvir “quem mandou a mulher andar com uma saia curta” ou “é
da natureza do homem”, culpabilizar a
vítima, eis um dos resultados dessa forma de pensar para a cultura. E nesse
caso, como podemos observar, o senso comum está se alterando por inúmeras
causas, como a luta das mulheres por igualdade, demonstrando o caráter sempre
mutável desse tipo de reflexão.
E a compreensão das particularidades de cada uma dessas tipos
do pensamento humano nos diz algo muito importante, elas não podem ser tomadas de
modo simétrico, porque correspondem a formas distintas de conhecimento. A ciência,
por exemplo, não se debruça sobre questões morais, como faz a religião, somente
quando os profissionais dela almejam entender como é e como funciona a
moralidade em determinada cultura, sem, entretanto, julgar certo ou errado.
Portanto, não se pode perguntar a um cientista, como fazem em programas
sensacionalistas de televisão, se é correto ou não interromper uma gravidez de
risco, mas pode fazer isso caso a pergunta seja em relação aos riscos de morte
da mãe ou do feto. Os cristãos, por sua vez, podem dizer se isso vai contra ou
não as leis de deus, mas nada podem dizer sobre os riscos e se o fazem vão
considerar, como devotos, primeiro o ordenamento religioso e depois o científico.
E alguém pautado no senso comum, por fim, pode somente, e simplesmente, responder
através de achismos concebidos a partir de suas experiências de vida: “eu acho
certo” ou “eu acho errado por causa disso e daquilo”. Juntar todos em um
debate, objetivando torna-lo mais plural, não é ruim se respeitarmos o lugar que
cada um ocupa em determinada situação social, porém, a não observação disso
leva a um lugar que nada resolve e a compreensões erradas a respeito dessas
instituições, servindo apenas para alavancar audiências.
Referências
bibliográficas:
LÉVI-STRAUSS,
Claude. A Ciência do Concreto. In: O Pensamento Selvagem.
Campinas, SP: Papirus, 1989.
GEERTZ,
Clifford. O Senso Comum como Sistema Cultural. In: O Saber Local: novos
ensaios em antropologia interpretativa. Petrópolis, RJ: Editora Vozes,
2014.
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