A formação da periferia paulistana de 1940 até 2010


Autor: Felipe de S.P

Podemos definir a periferia como: uma região socioeconômica e geograficamente segregada em relação aos processos econômicos centrais e ao perímetro majoritariamente atendido pelas infraestruturas urbanas. A sua origem remonta as intensas industrialização e modernização da capital paulista iniciada em 1940 (CALDEIRA, 2000, p.48), momento no qual, por um lado, os moradores negros e pobres eram expulsos do centro da cidade, em razão de sua reestruturação, e, por outro, os migrantes, de dentro e fora do estado, chegavam para substituir a mão de obra estrangeira (ROLNIK, 2017, p.201), fixando-se em antigas zonas rurais em processo de loteamento (CALDEIRA, 2000, p.220). Primeiro, ambos se concentravam próximos às rotas dos ônibus, concorrentes dos bondes desde 1930 (CELDEIRA, 2000, p.2019), e iam se afastando na medida em que essas áreas eram ocupadas. O que ocorreu foi o seguinte: o desenvolvimento econômico paulista baseado na industrialização produziu uma cidade repartida entre classes, as mais abastadas perto do centro e as pobres longe dele, cujos territórios eram ordenados e desordenadas, nessa respectiva ordem, por grandes investimentos públicos e de incorporadoras ou exprimindo a situação dos moradores que construíam suas casas na medida das suas possibilidades socioeconômicas (HOLSTON, 2013, p.223).
No final dos anos de 1970, entretanto, o progresso anunciado pela industrialização começa a apresentar sinais de esgotamento e, a partir daí, as sucessivas crises econômicas pelas quais o país passará, até a segunda metade de 1990, atingirá os modos de vida e de sobrevivência das populações periféricas: de um lado, muitos dos antigos trabalhadores metalúrgicos tiveram que mudar de profissão devido ao desemprego ou buscar saídas informais, porém com salários e retiradas mais baixas, e seus descendentes tinham acesso a um mercado de trabalho frágil e flexível, colocando por terra os grandes sonhos de ascensão social de outrora (ROLNIK, 2017, p.55); de outro, apesar da lenta chegada dos benefícios urbanos na periferia, como, por exemplo, o aumento do acesso à educação que ajudava os jovens a conseguir empregos superiores aos dos pais (SILVA, 1998, p.141), essa mesma demora ajudou a constituir territórios precários e violentos. Não é assim sem razão que, entre 1980 e o início dos anos 2000, as periferias acabaram se tornando “zonas de guerra” dominadas por assaltantes, traficantes, justiceiros, pés-de-pato e esquadrões da morte (SILVA, 2010, p.08), esses últimos compostos por agentes da lei.
A partir do final de 1990, por sua vez, movimentos civis e públicos de pacificação, associado a emergência do Primeiro Comando da Capital (PCC) (FELTRAN, 2010, p.63), assim como a estabilização e o crescimento econômicos passados pelo país entre 1995 e 2010, ajudaram a criar territórios periféricos mais urbanizados, seguros e passíveis de serem utilizados por suas populações de maneira mais completa (PINTO, 2018, p.21), o que, por seu turno, não desfez as contradições existentes entre a vida nesses locais e nas regiões ricas da cidade.
        Por fim, no gráfico apresentado abaixo, construído com das informações do Histórico Demográfico do Município de São Paulo (Disponível no seguinte endereço de internet: http://smul.prefeitura.sp.gov.br/historico_demografico/index.php ), é possível observar o intenso aumento populacional da cidade nos trinta anos, de 1940 até 1970, da pungente economia baseada na industrialização.



Referências bibliográficas:
CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo: Editora 34; Edusp, 2000.
FELTRAN, Gabriel de Santis. Crime e castigo na cidade: os repertórios da justiça e a questão do homicídio nas periferias de São Paulo. CADERNO CRH, Salvador, v. 23, n. 58, p. 59-73, Jan./Abr. 2010
HOLSTON, James. Cidadania Insurgente: disjunções da democracia e da modernidade no Brasil. 1º Edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
ROLNIK, Raquel. Territórios em conflito. São Paulo: espaço, história e política. São Paulo: Editora Três Estrelas, 2017.
SILVA, José Carlos G.S. Rap na cidade de São Paulo: música, etnicidade e experiência urbana, 1998. Campinas: UNICAMP. Tese de doutoramento em Antropologia, 1998.

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