Três mulheres importantes na antropologia
Autor: Felipe de S.P
Oito
de março, ontem, foi o Dia Internacional da Mulher e por essa razão eu gostaria
de apresentar três antropólogas no início do século XX. O papel de cada uma
delas é importante porque elas contribuíram para o desenvolvimento dessa
Ciência Social e, não somente, foram a vanguarda em relação ao machismo, o
preconceito e o racismo, sendo elas: Daisy Bates (1859-1951), Camilla Wedgwood
(1901-1955) e Monica Wilson (1908-1982).
Daisy
Bates é irlandesa de nascimento, porém, após perder os pais e trabalhar em uma
casa de família, mudou-se para a Austrália em 1884. Depois de um curto
casamento fracassado, ela manteve-se solteira começou a excursionar e conhecer
as sociedades aborígenes de sua nova pátria. É durante esse seu trabalho que,
acompanhando os debates antropológicos da época, ela compreendeu as tradições dos
grupos tradicionais e desenvolve um profundo pessimismo em relação a eles: “não há esperança de proteger a idade da
pedra do século XX. Quando a pequena área do grupo de nativos é perdida, eles
perdem a vontade de viver e quando a vontade passa, morrem” (BATES, 1914,
p.65). Ela foi a única mulher a participar da expedição de Radcliffe-Brown, um
dos cientistas de maior expressão na época, na Austrália, através da qual ele
conseguiu elementos para escrever sobre matrimônio e parentesco aborígenes, e diz
sua biógrafa, Julia Blackburn, que ela o acusava constantemente de roubar suas
ideias e apresenta-las como sua. E hoje, embora Daisy não seja reconhecida no
Brasil, ela é apresentada nas Ciências Sociais australianas como uma de suas
mães.
Camilla
Wedgwood tem uma origem muito diferente de Daisy Bates, nasceu em uma família
abastada, filha de um juiz da Suprema Corte Inglesa. Diferente, também, pois
teve uma educação formal nas melhores escolas de sua época e, por fim,
ingressando na Newnham College da Universidade de Cambridge. Em um momento no
qual o trabalho antropológico era visto como “de um viajante heroico,
aventureiro, que saía do círculo da cultura ocidental para entrar em um mundo
misterioso e perigoso, definitivamente uma tarefa para os homens, os maiores,
mais fortes, calados e destemidos, uma espécie de John Wayne” (KORSBAEK,
2010, p.5), Camilla foi para o Pacífico, entre a Austrália e Papua Nova-Guiné.
E, muito bem vista por seus pares devido às suas pesquisas, ela passou oito
anos, entre 1935 e 1943, como diretora do Women´s College, da Universidade de
Sidney, Austrália.
Em
um outro ponto do mundo, na África do Sul, Monica Wilson, filha nasceu de pais
missionários, em Lovedale, na província do Cabo. Ela estudou na Inglaterra, em
Cambridge, porém voltou à sua terra natal e focou sua atenção à pesquisa com os
povos Nyakyusa e Pondo, na Tanzânia e na África do Sul, respectivamente, não
ficando somente em estudos de gabinete, isto é, analisando as sociedades a
partir de relatos de terceiros, como era comum em sua época. Monica lecionou na
University of Fort Hare e na Rhodes University, entre 1944 e 1952, ambas em seu
país de nascença. Devido a forma como se trabalhava junto aos seus
interlocutores, seu conhecimento das línguas locais e seus temas de pesquisa,
religião e mudança social na África dominada pelos ingleses, deixou um grande
legado na antropologia sul-africana, sendo reconhecida como uma das heroínas nacionais.
Isso porque, além disso, a tradição de pesquisa que ela ajudou a estabelecer foi
contra a visão de mundo da sociedade racista que, tendo as suas próprias
universidades, estabeleceu o Apartheid.
Elas são apenas poucas de muitas mulheres que contribuíram para o desenvolvimento das Ciências Sociais, achadas por mim no curso de minhas pesquisas sobre a antropologia inglesa na África, e posso dizer, com muita convicção, elas são pouco, ou quase nada, conhecidas pelos nossos estudantes e cabe a cada um de nós resgatar essas vozes, dando a elas o devido valor e, muito importante, democratizá-las para que todos nós possamos nos sentirmos representados na construção do conhecimento.
Referências
Bibliográficas:
BATES, Daisy. A Few Notes on the Southwestern Australian Dialects,
In. The Journal of the Royal Anthropological Institute of Great Britain and
Ireland, vol.44, 1914, p.65
KORSBAEK, Leif. Las Mujeres em la antropologia social britânica, In.
Dimension Antropológica. Año
17, vol. 48, enero-abril, 2010.



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