Os estabelecidos e os outsiders: a sociologia dos sujeitos como protagonistas

Autor: Felipe de S.P




            Norbert Elias, 1897-1990, é um sociólogo alemão que, ao estudar determinada comunidade na Inglaterra, chamada por ele de Winston Parva, depara-se com a seguinte situação: membros de um dos dois grupos dela componentes, não somente mantinham a crença de que são mais poderosos que os membros do outro grupo, mas também seres humanos melhores e, igualmente, eles tinham meios para impor essa crença (ELIAS et al., 2000, p.20). Este tipo de figuração, isto é, a maneira particular como os indivíduos estavam vinculados de modo interdependente, foi chamado pelo autor de “estabelecidos-outsiders”, podendo ser encontrada universalmente observando os seguintes elementos na relação entre os sujeitos de uma sociedade: a) atribuição de características humanas superiores por e para os membros do grupo estabelecido; b) exclusão dos indivíduos do grupo outsiders de qualquer contato social para além do obrigatório, o trabalho, por exemplo; c) o tabu de contato entre os grupos é controlado socialmente por meio de fofocas elogiosas e fofocas depreciativas, no caso dos que seguem as normas; do grupo estabelecido e no caso da não observação das normas, respectivamente; d) estigmatização do grupo outsider, através da atribuição de características de humanos inferiores. (ELIAS et al., 2000, p.20).
            No caso de Winston Parva o que permitiu a constituição da figuração foi o tempo, ambos os grupos eram formados por ingleses da classe trabalhadora, porém, enquanto os estabelecidos, chegando antes, foram capazes de forjar uma sociabilidade específica que mantinha a união e segregava os outsiders, esses, aportando na cidade em um segundo momento, não possuíam laços suficientemente fortes para enfrentarem os primeiros. No caso brasileiro não é difícil encontrar inúmeras figurações desse tipo, principalmente as ligadas as questões de gênero, raça, etnia e classe social, porém, elas vêm modificando-se ao longo do tempo, e basta uma leitura atenta de nossa história para perceber. Isso porque, segundo Elias, o equilíbrio de forças que atua para formar essa figuração é dada pelos indivíduos, é através das nossas ações, sejam elas pequenas ou grandes, que essa relação desigual pode se transformar. E é isso que torna a teoria Eliasiana interessante, nela a sociedade não é vista como um ente abstrato pairando sobre nossas cabeças, ao contrário, a sociedade constitui-se nas relações de interdependência entre os indivíduos, nela todos nós somos os protagonistas.

Referências Bibliográficas:
ELIAS, Norbert, SCOTSON, John L. Os Estabelecidos e os Outsiders. Rio de Janeiro: Zahar, 2000

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