O protagonismo de jovens estudantes no lazer da zona sul paulistana
Autor: Felipe de S.P
Durante quatro anos, entre 2012 e
2016, lecionei sociologia em quatro escolas públicas de Ensino Médio nas cercanias
do Capão Redondo, Jardim São Luís e Jardim Ângela, distritos vizinhos na zona
sul da cidade de São Paulo. Neste período, descobri que os jovens desenvolveram
maneiras de passar o tempo juntos, curtindo o período de lazer, inexistentes em
meus tempos de estudante na mesma região, sendo elas, a social, o rolê,
a party e o baile. De certo, sabemos, os termos que denominam
essas práticas são comuns e utilizados de modos distintos em vários lugares de
nosso país, porém, o interesse que me levou a estudar essas práticas, no
mestrado, eram elaboradas por um grupo específico. E, para além disso, a
grandiosidade na produção alcançada pelo último, o baile, destacava o
protagonismo juvenil frente a uma situação, e ao estigma, da precariedade e da
violência, vale destacar: os três distritos conformam parte da periferia e, em
1999, ficaram conhecidos como “Triângulo da Morte”, onde havia mais homicídios
por cada 100 mil habitantes no mundo, segundo a Organização das Nações Unidas
(ONU), e a música dos Racionais MCs destaca isso muito bem:
Durante a minha pesquisa descobri
como essas práticas se caracterizavam: a social representa o encontro mais
íntimo, agregando um menor número de indivíduos que são identificados como
amigos e é realizado na casa de algum membro do grupo; o rolê é um encontro itinerante, ocorrendo
dentro ou fora do bairro a partir da vontade do grupo, podendo agregar amigos; a
party é o encontro maior e mais complexo estruturalmente, ele é a elaboração de
uma festa idealizada por um grupo de amigos em casas de festa da região e
agrega um número maior de participantes minimamente conhecidos uns dos outros;
o baile, por sua vez, ligado mais ao universo simbólico do estilo musical funk,
é muito parecida com a party, porém, abre-se a todos os jovens da localidade e,
juntando amigos artistas e artistas mais conhecidos, MCs e DJs, era organizado
para alcançar lucro.
A
observação dessas práticas, criadas e vivenciadas por uma geração, deixou uma
evidente conclusão: o protagonismo juvenil ultrapassava a ideia de criação de
lazer, nesse processo, isso deixou-me muito contente, os meus interlocutores
demonstravam um profundo conhecimento de suas condições de vida, a respeito das
possibilidades e dos perigos de viver na periferia e, muito importante, sabiam
manipular uma e outra para dar cabo de seus desejos, sejam eles para a diversão
ou para ganhar dinheiro. E para terminar, creio, que a apresentação de um
trecho de meu caderno de campo, onde nós cientistas sociais, escrevemos observações
e descobertas, deixará evidente o alcance das ações juvenis em um espaço
carente de estruturas de lazer voltados para os interesses desses sujeitos e
não criados para eles, como vemos normalmente:
“De minha casa, localizada no Capão
Redondo, até o Campo Limpo, onde estava localizado o espaço do evento, alugado
para o baile Eclipse Party, foram dez minutos de ônibus pela avenida principal
de ligação entre os dois distritos. Durante a viagem eu observava as pessoas
caminhando nas calçadas, entrando em lojas de roupa, açougues, igrejas e
supermercados; e, ao mesmo tempo, eu buscava nos prédios suas numerações para
saber se o meu destino estava chegando. Eu desci no lugar indicado pelos
organizadores da atividade, “um ponto depois do CEU Campo Limpo”, e ao olhar
para o outro lado da avenida verifiquei uma pequena aglomeração de adolescentes
em frente a uma loja de equipamentos automotivos. Garotos e garotas, em
pequenos grupos espalhados na calçada pareciam esperar alguma coisa, uns
observavam o celular, outros conversavam e, embora, eu estivesse com o endereço
em mãos a certeza de haver chegado só me foi dada por essa visão. Fazendo o
mesmo trajeto que eu, buscando uma faixa de pedestres para atravessar a
movimentada avenida com seus carros e ônibus passando pelas duas mãos do
caminho, três meninos andavam e animadamente conversavam entre si.
O lugar ficava entre uma igreja
Renascer em Cristo e uma casa em construção, ele tinha uma fachada vermelha e,
espalhados nela, muitos grafites representavam equipamentos para carro. O
prédio era composto por dois pisos, o principal no nível da rua era o da loja
automotiva e, ao lado, em um pequeno declive um portão de ferro dava entrada
para o salão. Na porta um rapaz, aparentando uns trinta anos, me perguntou se
eu “tinha antecipado” ou se “pagaria na porta”; com minha resposta confirmando
a última opção ele apontou-me uma adolescente no interior do prédio. Eu estava
dentro do salão, mas não estava no baile, era um espaço de circulação proibida
aos convidados e servia para coordenar a entrada e saída das pessoas. Este ficava
logo abaixo ao piso da loja e era limitado por grades de ferro, dessas
utilizadas para organizar filas em venda de ingressos para shows, e por um
grande tecido Não Tecido (TNT) preto suspenso no ar e amarrado ao teto. A moça
foi ao meu encontro e me informou o custo de cinquenta reais para a entrada,
trinta e cinco reais a mais do valor, caso se eu tivesse comprado
antecipadamente. Eu entreguei o dinheiro a ela e fui encaminhado a revista,
logo após atravessar um espaço aberto entre as grades de ferro. Um segurança
vestindo terno preto revistou a mim e meu maço de cigarros, provavelmente, na
busca por drogas ilícitas. A seu lado, havia mais dois seguranças e um
bombeiro.
Eu me surpreendi em adentrar o
espaço: a visão do lado de fora não permitia crer na existência de uma área tão
extensa embaixo da loja de materiais para carro, todo o ambiente obedecia ao
declive do terreno e - no ponto em que eu estava - era possível observar dois
ambientes principais. A primeira área tinha formato de um “L”, pois, desde os
limites do terreno com a calçada, uma estrutura seguia pelo lado esquerdo até a
metade dessa área. Esse cômodo parecia ser uma moradia, mas não foi verificado
em detalhe, pois suas janelas e portas estavam fechadas. No espaço deixado pela
estrutura havia um bar improvisado em uma cozinha externa; e, oposta a ele, uma
parede estendia-se até o final da pista de dança. O bar tinha como limite um
balcão com tampo de ardósia, junto a ele pias e refrigeradores horizontais
serviam para os balconistas prepararem e guardarem as bebidas; ao fundo havia
uma churrasqueira e uma parede servindo de expositor de copos, cigarros de
sabor e produtos para consumo de narguilé. Seguindo o declive, ao lado do bar,
localizavam-se os banheiros masculino e feminino. A segunda área, a pista de
dança, era muito ampla e, ao fundo, um palco improvisado estava encostado na
parede limite do terreno. Nessa, um grande pedaço de Tecido Não Tecido preto
estava pendurado e servia de tela para anunciar o nome e a temática do baile,
ambos escritos com cartolina recortada em formato de letras. No palco havia
algumas mesas de plásticos para o discotecário colocarem seu equipamento e
trabalharem, esse era o espaço também para a apresentação do Mestre de Cerimônias
contratado. O restante do local estava aberto para usufruto dos convidados,
para reunirem-se, beberem, utilizarem narguilé ou dançarem. Nesse, a esquerda,
havia um bar para a venda de combos de bebidas, esses combos são compostos de
uma garrafa de destilado e energético.
No horário que
cheguei, uma hora depois do anunciado pelos organizadores que era as dezesseis
horas, o baile já contava com um grande contingente de convidados. A aglomeração
concentrava-se nos bares e na pista de dança, onde alguns adolescentes em grupo
fumavam narguilé encostados às colunas, enquanto a primeira área servia de
passagem e local de espera. No bar havia duas adolescentes, um rapaz mais velho
e uma senhora vendendo as bebidas em ritmo frenético, mal conseguiam atender as
demandas. Muitos dos sujeitos amontoados em frente ao balcão estavam
interessados nos destilados e na compra dos “copos do baile”. Os copos são
feitos de acrílico colorido e transparente, em suas laterais estão escritos o
nome do baile e o seu motivo, e sua aquisição dá direito ao convidado de
usufruir doses de algumas bebidas durante toda a atividade. Devido ao grande
consumo de bebidas alcoólicas os organizadores corriam de um lado para o outro,
entre a rua, o estoque e o bar, carregando os produtos a serem vendidos. Todos
portavam no pescoço colares de tecido com um crachá e assim dava para
identificá-los, e entre eles estavam muitos alunos, assim como o eram muitos
frequentadores. Muitos deles vieram falar comigo, perguntavam sobre o colégio e
o que eu estava fazendo ali. Dentre eles, duas meninas, para as quais fui
professor do primeiro ano do Ensino Médio, brincavam dizendo que eu havia ido à
festa para beber e procurar “novinhas”. A surpresa por eu estar ali era
expressa nas feições de muitos que me reconheciam, mas me cumprimentavam apenas
com um aceno de cabeça.
A vestimenta dos presentes,
rapazes e moças, obedecia a certo padrão dentro da diversidade existente. A
maioria dos meninos estava de boné na cabeça, camisetas coloridas e algumas
identificadas com marcas famosas e locais, como as da grife Vila Fundão –
Guerreiroz. Uns vestiam calça jeans ou bermuda colorida de tecido sintético. As
meninas enroupavam-se com camisetas curtas coladas ao corpo e, a maioria delas,
usavam shorts jeans relativamente curtos. Outros trajes, por serem usados por
uma minoria de meninos, destacavam-se, era o caso das camisetas com alusão a
cultura reggae e o movimento hip-hop. Os cortes de cabelo masculino eram bem
parecidos, raspado dos lados e alto em cima, e alguns poucos rapazes negros
usavam o estilo Black Power. As meninas usavam os cabelos longos, alisados, e
outras cacheados. Era possível identificar muitos grupos dispersos, reunidos em
rodinhas fixas, entre eles, posso destacar os agrupamentos de idade, sexo, as
culturas acima citadas, e os grupos de rapazes frequentadores de academia que
retiravam as camisetas para exibir os músculos na festa.
Os coletivos e indivíduos em
trânsito entre os ambientes abriam caminhos entre os grupos parados causando
congestionamentos de pessoas. Como um observador, na busca por apreender os
acontecimentos, eu era um desses nômades. Eu instalava-me durante um tempo em
pontos estratégicos que tornavam minha visão do evento mais ampla para
acompanhar o desenrolar e o comportamento dos convivas. Em minha estadia nesses
lugares presenciei alguns casos de socorro à sujeitos que excederam no consumo
de álcool, esses eram ajudados pelos amigos que ofereciam água ou pediam para
eles se sentarem e esperarem os efeitos da bebedeira passar. No decorrer da
noite os casos de consumo excessivo de álcool foram aumentando, mas sem
ocorrências mais graves, pelo que eu pude verificar. Eu não era o único a
observar, seguranças e bombeiros ficavam apostos vigiando estrategicamente; bem
como uma equipe de fotógrafos profissionais o faziam para capturar os momentos
mais interessantes. Conforme o tempo passava o ambiente ficava cada vez mais
cheia e a mobilidade mais difícil, devido a quantidade de pessoas e a pouca
luz. A primeira área era a mais iluminada, por ser aberta, recebia a luz do
sol, todavia, tornou-se a mais escura, sendo aclarada por lâmpadas comuns; em contraposição
a ela, a pista de dança tornava-se mais clara com maior número de luzes e
refletores coloridos acesos conforme caia a noite. Em um primeiro momento o
baile aproximava-se de uma balada, onde sujeitos em seus grupos participavam de
um evento regado por músicas, bebidas e dança. Nessa parte do evento, a
principal atração era o discotecário, qual animava os participantes tocando os
grandes sucessos do funk, quando a música era realmente muito conhecida a
maioria dos presentes cantavam e dançavam em coro. Com a noite já caída,
próximo às vinte e uma horas, começaram os rumores da apresentação do Mestre de
Cerimônias (MC). Nesse momento, o convívio entre os indivíduos ligados a seus
grupos, o bar, os passinhos de dança e o narguilé coletivamente utilizado,
cederam o protagonismo para o palco.
Durante a apresentação os convivas apertavam-se na grade que os
separavam do palco, cantavam com o MC e gravavam o show com seus telefones
celulares. O MC cantava e interagia, chamava as meninas ao palco para dançarem
as coreografias, enquanto a plateia participava gritando, cantando e
assobiando. Na mesa do discotecário que acompanhava a estrela havia sempre
disponíveis garrafinhas com água, vários cascos de dois litros de energético e
uísque Red Label. Os telefones celulares eram utilizados também pelo MC. Enquanto
cantava, ele gravava a si mesmo e o show, apontando a câmera de modo a
enquadrar a sua performance e a ação dos convivas.
A apresentação é o clímax do
evento, no qual as atenções dos participantes estão direcionadas para o palco,
onde artistas e organizadores tentam criar um espetáculo apoteótico. Refletores
movimentavam-se jogando luzes coloridas no ambiente, projetores de raio laser
desenhavam de verde suas paredes, e conjuntamente com a fumaça das máquinas e a
iluminação estroboscópica criavam o show. O espetáculo durou quarenta minutos,
terminando depois das vinte e três horas, e seu fim marcou o enceramento do
evento. A saída de todos transcorreu tranquilamente, os convidados ajudavam os
amigos alcoolizados, saiam em grupo, enquanto a equipe de produção começava os
preparativos para organizar e devolver o espaço em ordem. O deslocamento da
maioria das pessoas ocorreu em direção ao ponto de ônibus do sentido inverso ao
usado para chegar, isto é, majoritariamente os frequentadores do baile residiam
no Capão Redondo, assim como eu.” (PINTO, 2018, p.52-56)
Referências Bibliográficas:
PINTO, Felipe de Souza Entre
sociais, rolês, parties e bailes: uma etnografia dos entretenimentos juvenis no
Capão Redondo. Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-Graduação em Ciências
Sociais da Universidade Federal de São Paulo, 2018.
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