O medo e as mudanças sociais na pandemia de coronavírus
Autor: Felipe de S.P
Norbert Elias, escrevi semana
passada, teoriza a respeito dos processos psíquicos e sociais que, em nossa
sociedade ocidental moderna, afasta os moribundos e os idosos de nossas vistas
em razão do medo da morte. O humano, a única espécie animal ciente de sua
finitude, individualiza-se, construindo um mundo interior separado do exterior,
e em sociedade constrói ritos, procedimentos e técnicas para afastar a sua
sombra. E, como eles variam de acordo com a cultura, em nosso caso podemos
listar algumas instituições cujas ações voltam-se para essas questões: as
ciências, as igrejas, os hospitais, os asilos e, em último caso, os cemitérios.
Essas instituições, como constructos
culturais, concebem relações entre si mesmo pertencendo a esferas diferentes,
não é incomum, por exemplo, encontrarmos capelas em hospitais ou embates entre religiosos
e cientistas quando são colocadas em pauta questões cujas respostas se opõem.
Elas, todavia, não se restringem a essas esferas, ao contrário, apresentam tensões
implícitas nos mais variados assuntos sociais, como ocorre, por sua vez, quando
as ciências médicas e biológicas buscam soluções para prolongar a vida, seja dos
idosos ou dos moribundos, e, ao mesmo tempo, no campo das instituições
políticas, o sistema de previdência social precisa ser rearranjado para dar
conta de uma demanda não restrita aos objetivos médicos, mas, também, a nossa
vontade de ter uma vida pautada em um tipo ideal de um ser saudável. Mais além,
conforme podemos observar a partir das soluções de contraposição a pandemia
pela qual estamos passando, em decorrência do novo coronavírus, e os problemas
dela derivados, são postos em interação a saúde, a política e a economia. E
no centro desse debate, embora como uma falsa questão, coloca-se em oposição o
primeiro e o último mediados pelo do meio, isto é, os políticos precisam
decidir se privilegiam a saúde em detrimento da economia ou se privilegiam a
economia em detrimento da saúde. Porém, meu objetivo, aqui, não é explicar porque
esse conflito é pautado em uma questão enganadora, mas evidenciar como esse problema
destaca uma reflexão cujos resultados podem ser positivos.
Perceba, as respostas à pandemia e
aos problemas estruturais brasileiros não estão distantes umas das outras, as
primeiras só tornam evidentes elementos e relações culturais próximos a todos que
as últimas são tratadas sobre as bases da política econômica, pois, se de um
lado, somos levados a pensar na vida e na morte, de outro, as discussões tocam
apenas o nosso papel de cidadão na hierarquia da organização do Estado. O que
eu quero pontuar é, justamente, o seguinte: vida e morte, assim como os
procedimentos e técnicas para aumentar uma e afastar a outra, nos colocam em
relação como humanos, saindo da esfera estrutural das relações, e se
refletirmos atentamente sobre isso entenderemos como cotidianamente lidamos mal
com a finitude e com aqueles que dela estão perto. Vamos voltar a atenção para
a discussão entorno da pandemia, nela as proposições mais óbvias, por parte de
governantes e da população desinformada, é afastar da vida coletiva os idosos e
moribundos, sendo vistos apenas como estorvos para uma economia já fragilizada,
e o resto, aqueles “capazes” de contribuir são chamados a continuar suas
atividades, de modo oposto ao que é pensado nas instituições médicas e científicas,
pois esses não estão isentos e podem ser vetores de transmissão. Na realidade,
os cuidados com os grupos de maior risco, a diminuição das possiblidades do
restante da população não se contaminar e nem transmitir o coronavírus e o
desenvolvimento econômico podem caminhar juntos. Porém, como isso é possível?
Primeiro,
é preciso sair do campo de debate baseado na estrutura social na qual uns tem
mais valor e poder que os outros e encarar essas questões como um problema comunal,
todos adoecem, envelhecem e, até encontrarmos a fórmula para a vida eterna,
morrem. Isso porque, conforme podemos pensar a partir das teorizações de outro
pesquisador, dessa vez no campo da antropologia, Victor W. Turner (1920-1983), durante
as crises os atores sociais, ao encontrarem-se no limiar de seus papeis sociais
na vida cotidiana, podem se unir e criar esforços para solucionar os problemas
sociais que elas destacam e, assim, rearranjam a sociedade em novos termos, isto é, nas crises nós podemos mudar a sociedade para melhor. Se
até aqui destaquei a questão dos idosos e moribundos, seguindo a perspectiva de
Norbert Elias, essas duas condições servem como um primeiro mote para outros inquéritos
que podem nos ajudar a desfazer distanciais socioeconômicas, preconceitos,
racismo, problemas com o gênero, sexualidade, identidades e suas intersecções,
já que todos, nessa pandemia, podemos nos dar conta de nossa humanidade.
Referências
Bibliográficas:
ELIAS,
Norbert. A Solidão dos Moribundos.Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editor, 2001.
CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de
Castro. Drama, ritual e performance em Victor Turner. Sociologia & antropologia
| rio de janeiro, v.03.06: 411 –440,
novembro, 2013.
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