Norbert Elias na epidemia de COVID-19: o medo da morte em nossa sociedade
Autor:
Felipe de S.P
O humano é o único animal consciente
de sua própria morte e, atualmente, em razão dos avanços científicos,
prolongadores da vida e viabilizadores da terceirização dos cuidados com os
moribundos, ele a recalca e individualiza-se cada vez mais, afastando-se da
sociedade, construindo um mundo interno como se não fizesse parte do externo. A
morte causa constrangimento à vida, essa é uma das ideias principais do
argumento do sociólogo Norbert Elias para explicar como as sociedades lidam com
a finitude da vida, criando, por exemplo, ideias específicas e rituais que, em comunidades,
fazer parte do processo de socialização (BORGES, 2015, p.119).
Essa teorização de Norbert Elias
pode muito bem ser utilizada para pensarmos as nossas ações diante da pandemia
de COVID-19, por um lado, as instituições tomam suas decisões baseadas em
analises científicas, realizando-as a partir de uma complexa série de procedimentos
técnicos, e nós, baseando-nos nelas e interpretando-as à luz de nossas condições,
tomamos as nossas para afastar as possibilidades de infecção, por outro, parte
da população, incluindo instituições políticas, nega ou tenta amenizar os
acontecimentos. Se é certo que todos esses grupos tentam afastas a morte
através de processos e rituais, os primeiros o fazem por razões humanitárias,
familiares, religiosas e políticas, os outros, por sua vez, críticos a esses
motivos, o fazem, irresponsavelmente, porque os valores citados ferem, não somente
as suas crenças, mas, sim, as suas personalidades. E isso causa problemas no
autocontrole individual, e mesmo coletivo, nos indivíduos do último grupo que recalcam
a morte e se afastam do mundo exterior (MENEZES, 2004, p.150).
Por fim, passamos por esses dois
processos, de formas diferente, evidentemente, nos dias considerados normais, temos
motivações para internar os idosos e doentes em asilos e hospitais, arrumamos
desculpas para os recorrentes homicídios em nosso país e para os cidadãos em situação
de rua que morrem de frio no inverno paulistano. Porém, é em momentos como os
atuais, quando a morte bate a porte desafiando nossas convicções mais
arraigadas, que somos obrigados a lidar com a finitude da vida, seja aos poucos
ou de repente, e o fato de que a natureza não leva em consideração gênero,
raça, etnia, idade ou o nosso poder econômicos, somos todos o mesmo animal.
Referências Bibliográficas:
BORGES, Lourdes del
Giudice. A solidão dos moribundos:
seguido de envelhecer e morrer: alguns problemas sociológicos. Serv. Soc.
& Saúde, Campinas, SP v.14, n.1(19), jan./jun. 2015.
MENEZES, Rachel
Aisengart. A solidão dos moribundos: falando abertamente sobre a morte. PHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro,
14(1):147-171, 2004
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