Entretenimento sem culpa: a sociologia explica a importância do lazer


Autor: Felipe de S.P
Nesse período de pandemia, com instituições políticas nacionais e internacionais recomendando medidas de higiene e promovendo o distanciamento social para conter a proliferação das infecções por coronavírus, parte da população pode ficar em sua casa. E, mesmo trabalhando home office, aumenta consideravelmente parte de um período que é indispensável à vida, o tempo livre. Esse, como sinônimo de um período liberado, entre os tempos do trabalho e das obrigações sociais, é oriundo dos desenvolvimentos das sociedades modernas, ou seja, emerge na reorganização do trabalho dentro de um domínio próprio, arbitrário, e destacado das outras atividades da vida, em associação com a diminuição do controle das instituições sociais sobre os sujeitos (DUMAZEDIER, 2008, p.55). Sendo esses dois movimentos simultâneos os que permitem aos sujeitos ocupar os períodos antitrabalhos com práticas “cujo fim é, primeiramente, a satisfação do ser próprio por si mesmo” (DUMAZEDIER, 2008, p.45), essa é a definição mais apurada de lazer. Assim, nesse período autônomo da vida, os todos estão liberados, dentro de suas possibilidades socioeconômicas, culturais, históricas e espaciais, “para participar ou mesmo para gerar novos mundos simbólicos de entretenimento, esporte, jogos, diversões de toda espécie” e, ainda, mais, livres “para transcender as limitações sociais estruturais” e “brincar... com ideias, fantasias, palavras [...], tinta [...] e relações sociais com os amigos” (TURNER, 2015, p.49, itálicos do autor).
Essa é a distinção do tempo livre em referência ao tempo ocupado, pois, esse último, por sua vez, “está no domínio da adaptação racional dos meios aos fins” (Ibidem, p.45), isto é, faz parte do domínio objetivo da vida. A dimensão subjetiva, ao contrário da objetiva, caracterizada “como um sistema estruturado, diferenciado e frequentemente hierárquico de posições político-jurídico-econômicas, com muitos tipos de avaliação de ‘mais’ ou de ‘menos’” (TURNER, 2014, p.99, aspas do autor), na qual os sujeitos se relacionam a partir de suas posições e agem a partir de seus papeis dentro dela, é definida por outro tipo de relação humana, “o da sociedade considerada como um comutatus não estruturado ou rudimentarmente estruturado e relativamente indiferenciado, uma comunidade, ou mesmo comunhão, de indivíduos iguais” (TURNER, 201, p.99, itálicos do autor), ou seja, é baseada nos vínculos sentimentais e afetivos entre os sujeitos que, a partir de seus interesses, podem ser exercitados através de uma miríade de atividades de lazer. Essas que, diferente das atividades institucionais, não são realizadas na observação de suas finalidades, mas se comprazem como “um tipo de assimilação livre, sem submissão às condições espaciais ou ao significado dos objetos” (PIAGET, 1962, p.86 apud TURNER, 2015, p.46), isto é, elas são brincadeiras em oposição aos trabalhos da “vida séria” (DURKHEIM, 1996, p.418)
O conjunto das atividades recreativas é amplo e variado, entre os vários gêneros de lazer encontram-se, por exemplo, atividades antes regidas pelas leis da espécie e o dever institucional, como, o sexo e antigos rituais e cerimonias, os carnavais e as festas juninas, os entretenimentos tradicionais, as dramatizações e os espetáculo artísticos de todos as formas, dança e música.  Há aqueles desenvolvidos a partir do progresso técnico-científico, o cinema, o rádio, a televisão. E existem, igualmente, os possibilitados pelo mesmo progresso, as discotecas, os bares, as baladas, os churrascos e excursões de todo tipo, através da aviões, barcos, navios, ônibus, carros e etc. (DUMAZEDIER, 2008, p.44; TURNER, 2015, p.57).
Diante dessa multiplicidade, as atividades de lazer podem ser distinguidos em dois tipos, conforme indica a definição anterior de Turner (2015, p.49), sendo eles, entretenimentos para e entretenimentos por: os primeiros tendem a ser criados por pessoas físicas ou jurídicas e são “pensados, a princípio, como oferendas lúdicas disponíveis no mercado ‘livre’” (TURNER, 2015, p.75, aspas do autor), por exemplo, os festivais musicais; enquanto os últimos, propendem a ser coletivos e “relacionados com os ritmos do calendário, com os ritmos biológicos e socioestruturais” (TURNER, 2015, p.74), por exemplo, os aniversários em bares, discotecas e em churrascos. Existem, todavia, os gêneros híbridos entre um e outro, como, as atividades que surgem do fundo coletivo e tornam-se práticas com objetivo “sérios”, tal-qualmente, o retorno financeiro para os seus realizadores. A multiplicidade do lazer dá-se em razão, justamente, do fato dos sujeitos estarem anistiados da ordem objetiva da vida, e poderem, através de antigas e novas formas de rituais, cerimônias e entretenimentos, ou “brincando com os fatores da cultura e dispondo-os às vezes em combinações improváveis, surpreendentes, chocantes e, em geral, experimentais” (TURNER, 2015, p.54, itálico do autor) construir as suas atividades singulares, evidentemente, sempre a partir dos interesses individual ou partilhados, portanto elas possuem diferentes estruturas que podem ser observadas na análise do grupo e o imaginário compartido.
No lazer os indivíduos podem, por um lado, realizar o “mundo especial” que todas as sociedades possuem, onde, em geral, “a vida transcorre num plano de plenitude, abastança e liberdade” (DAMATTA, 1997, p.38), ou seja, o imaginário de um mundo ideal, ou, mesmo, por outro lado, buscar a realização dos seus desejos, desde os mais inconscientes, aqueles que na leitura lacaniana entende-se por “real”, “a realidade psíquica do desejo; aquilo que comporta o que nos falta por inteiro, que é inimaginável, inacessível e inapreensível em sua totalidade” (AMARAL, SILVA, 2012, p.248), isto é, a busca do gozo, até os mais conscientes e mais públicos, aqueles do mundo ideal. Por essa razão, eles não são apenas “sinônimo[s] de alegria, de pura bonomia” (PEREZ, 2012, p.26), mas neles podemos encontrar regozijo e tristeza, violência e paz, angustia e reconforto. Pois, muitas vezes, nos encontros dos sujeitos pode acontecer: a superação das distâncias entre os indivíduos; a produção de um estado de efervescência coletiva entre os participantes; levar a transgressão das normas mais importantes que regem nossas vidas comuns (DURKHEIM, 1996, p.417-418); ações exaltadas, a exacerbação da sexualidade, e ações excessivas como a bebedeira, e a alimentação exagerada, isto é, onde todas as possibilidades de consumo são disponibilizadas (CAILLOIS, 2015, p.15; BATAILLE, 2016, p.46); a violência e confronto entre os indivíduos (GIRARD, 1978, apud VIANNA, 2004 [1987], p.47-48); e levar “as condutas heréticas, em resumo, tudo o que, a partir da vida coletiva, não tende a se integrar ou a se assimilar ao ‘mana’ ou a uma ‘cultura’” (DUVIGNAUD, 1983, p.72 [aspas do autor]).
            Essas ideias são atributos das festas, seguindo as perspectivas desses cinco autores, por isso mesmo, pode-se dizer que o lazer pode assumir aspectos festivos, todavia, cada um dos clássicos parte de premissas distintas para elaborarem as suas ideias. Para Durkheim (1996) e Caillois (2015), a festa serve para os indivíduos entrarem em contato com as suas energias vitais, descansando da dura realidade cotidiana e preparando-se para mais um período de trabalho, e para “manter e revigorar a intervalos regulares, os sentimentos coletivos e as ideias coletivas que fazem sua unidade e a sua personalidade” (DURKHEIM, 1996, p.472), por esse motivo, na teoria dos dois autores, a festa aparece como um momento no qual a imaginação e a criatividade estão mais à vontade. Em Bataille (2016) e Girard (1978), a festa aparece como uma solução possível ao desejo mimético dos indivíduos, isto é, uma forma do indivíduo retornar à comunhão com os outros seres e a natureza sem perder a sua humanidade, conquistada às custas de sua própria diferenciação com a natureza, ou seja, ela é uma forma limitada de “retornar à imanência” (BATAILLE, 2016, p. 46). Para Duvignaud (1983), em oposição aos dois primeiros, a festa representa a “capacidade que têm todos os grupos humanos de liberarem-se de si mesmos e de enfrentarem uma diferença radical no encontro com o universo sem leis nem forma, que é a natureza na sua inocente simplicidade” (DUVIGNAUD, 1983, p.212).
O aspecto festivo do lazer apresenta uma característica muito interessante que diz respeito a dinâmica da sociedade e às transformações culturais. A festa, na visão de Duvignaud (1983), ao colocar os indivíduos frente a uma “realidade transobjetiva e transubjetiva”, arrebata o social ao social e “uma capacidade infinita de criação e inovação é vertida na revelação das atrações então sentidas. Por sua vez, a inovação age sobre a trama da existência coletiva, transformando-a e perturbando-a, sugerindo novas formas que”, por sua vez, “cristalizadas, vão pesar sobre os membros da comunidade ou da sociedade” (DUVIGNAUD, 1983, p.230). E, desse modo, a festa não é somente uma maneira de manter a sociedade, conforme apresentam as perspectivas de Durkheim e Caillois, mas, possibilita mudanças sociais, novos modos de ver e vivenciar a vida, e outras formas de se relacionar com os indivíduos em si, com o mundo, e com as outras pessoas.
Essa perspectiva faz recordar as concepções simmelianas (2006) de conteúdos da vida e sociação lúdica. Segundo o autor, “com base nas condições e nas necessidades práticas, nossa inteligência, vontade, criatividade e os movimentos afetivos, elaboramos o material que tomamos do mudo”, e “de acordo com nossos propósitos, damos a esses materiais determinadas formas, e apenas com tais formas esse material é usado como elementos” em nossa vida. “Mas essas forças e interesses se liberam, de um modo peculiar, do serviço a vida que os havia gerado e aos quais estavam originalmente presos” (SIMMEL, 2006, p.61), tornando-se autônomos em relação a eles. Todavia, os interesses, sejam quais eles forem, “sensoriais, ideais, momentâneos, duradouros, conscientes, inconscientes, movidos pela causalidade ou teleologicamente determinados”, somente viram elementos de sociação “quando transformam a mera agregação isolada dos indivíduos em determinadas formas de estar com o outro e de ser para o outro” (SIMMEL, 2006, p.60). Nesse processo se realiza nas sociações, justamente, o mesmo que com os conteúdos da vida, elas tornam-se autônomos, isto é, “fins em si mesmas e exercem seu efeito por sua própria força e sua própria lei, seletivas e criativas, independentemente de seu emaranhado com a vida prática, e não por causa dela” (SIMMEL, 2006, p.62), pois, ao entrarem em interação os indivíduos levam consigo o desejo de estar sociados, sendo esse que dá as sociações formas singulares que o autor chamará de sociação lúdica ou sociabilidade. Ponderando sobre as reflexões de ambos os autores, Duvignaud e Simmel, podemos dizer, que o lazer, não está só serviço da coletividade, mas, igualmente, ajuda a pensá-la e transformá-la, tanto, em seu aspecto subjetividade, isto é, em seu tempo livre, quanto, em sua dimensão objetiva, ou seja, durante os períodos ordinário da vida em sociedade. Não sendo assim  à toa, e diante do exposto anteriormente (TURNER, 2015, p.71)  que o tempo livre e o tempo de trabalho se interpenetram o tempo todo, seja, quando o último possibilita o primeiro, ou, quando, o lazer “representa o sistema latente de alternativas potenciais do qual a novidade vai surgir quando as contingências no sistema normativo assim exigem”.
E desse modo, o lazer não é, como pensavam alguns cientistas sociais no início da segunda metade do século passado, um período desimportante para pesquisa, pois servia apenas para o trabalhador recuperar as suas forças (MAGNANI, 2008, p.29), ou, mesmo, como muitos de nós pensamos atualmente: o desperdício de tempo que poderia ser usado para outros fins. Como nós vimos, o lazer, ao contrário, nele é possível o entretenimento e a reflexão ao mesmo tempo, bem diferente do que somos quase obrigados a fazer em nossa vida cotidiana. Por isso, aproveite esse tempo, com certeza ele fará diferença em sua vida e na da sociedade como um todo.

Referências Bibliográficas:
AMARAL, Leila, SILVA, José Augusto Silva. Brincando com fogo: violência e festa no universo funk. In. PEREZ, Léa. Festa como perspectiva e em perspectiva. Rio de Janeiro: Gramond, 2012.
AMARAL, Rita. Festa à brasileira: sentidos do festejar no país que não é sério. São Paulo: Universidade de São Paulo, Tese de doutoramento em Antropologia Social,1998.
AMARAL, Rita. Para uma antropologia da festa. In. PEREZ, Léa. Festa como perspectiva e em perspectiva. Rio de Janeiro: Gramond, 2012.
BATAILLE, George. Teoria da religião. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2016.
BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec, 1987.
CAILLOIS, Roger. O sagrado de transgressão: a teoria da festa. Outra Travessia – Revista de Literatura, Santa Cataria, vol.19, 1º Semestre, 2015, pp.15-55.
DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. 6º Edição. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
DUMAZEDIER, Joffre. Sociologia empírica do lazer. 3º edição – São Paulo: Perspectiva; SESC, 2008.
DURKHEIM. Emile. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
DUVIGNAUD, Jean. Festas e Civilizações. Edições Universidade Federal do Ceará, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1983.
MAGNANI, José Guilherme C. Na Metrópole: textos de antropologia urbana. 3º Edição. São Paulo: Fapesp, 2008.
TURNER, Victor W. Do ritual ao teatro: a seriedade humana de brincar. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2015.
TURNER, Victor W. O processo ritual: estrutura e antiestrutura. 2º Edição. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.
SIMMEL, George. Questões fundamentais da sociologia: indivíduo e sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.
PEREZ, Léa Freitas. A festa para além da festa. In. PEREZ, Léa. Festa como perspectiva e em perspectiva. Rio de Janeiro: Gramond, 2012.
VIANNA, Hermano. O mundo funk carioca. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2014.

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