A juventude e a juventude periférica paulistana atualmente
Autor: Felipe de S.P
A juventude pode ser definida como “etapa
da vida que se situa entre a proteção exigida para a infância e a emancipação
para a vida adulta” (NOVAES, 2016, p.119). Sua origem remonta o processo de
substituição da aprendizagem pela escola como meio de educação (ARIÈS, 1978,
p.11), permitindo a separação entre adultos, crianças e, a um só tempo, o
surgimento de sociabilidade específicas a partir das vivências cotidianas dentro
da escola. Seu delineamento como fase distinta das demais, entretanto, deu-se
durante a fase pós-guerra, 1950, conjuntamente com o desenvolvimento industrial
que, por sua vez, encontrou neles um grupo de consumo. Não somente, os meios de
comunicação em massa e o progresso do entretenimento de massa contribuíram para
desenhar os gostos e costumes próprios desses sujeitos (PEREIRA, 2007, p.3). Não
sendo, assim, sem razão, portanto, que a escola e a cultura se apresentem como elementos
cruciais na vida juvenil (PEREIRA, 2016, p.115). E, nesse sentido, essa fase
não é somente uma atribuição, mas também uma identificação autoatribuída, pela
qual esses sujeitos marcam seu espaço próprio na sociedade (DAYRELL, 2007,
p.1110).
Nesse processo, atribuído e
autorreferente, a juventude apresenta-se como valor social identificado por uma
dupla moratória, social e vital: dizendo sobre a possibilidade deles
prepararem-se educacional, profissional e de amadurecerem biologicamente; e um
excedente temporal para eles engajarem-se mais arriscadamente na vida, agir sem
grandes responsabilidades e de maneira permissiva antes de ingressarem na vida
adulta, ganhando as responsabilidades do trabalho, da família e da sociedade
(PEREIRA, 2007, p.4). Essas possibilidades, entretanto, apresentam-se desiguais
para os jovens das camadas altas, médias e baixas: enquanto as primeiras podem
viver essa fase com maior tranquilidade; os últimos, por sua vez, precisam,
majoritariamente, ingressar no mercado de trabalho para experimentá-la. Essas
desigualdades, porém, não se relacionam somente as questões socioeconômicas,
mas, também, passam pelas identitárias, raciais, étnicas, de gênero e de
sexualidade (NOVAES (2016, p.106). E, ainda, é preciso levar em consideração a questão
das gerações, ou seja, para além dessas diferenças nas formas de viver a
juventude, elas aumentam quanto observamos o fato de que, conforme o mundo
muda, a experiência juvenil muda também (OLIVEIRA, 2015, p.18).
O Brasil, por apresentar-se como um país altamente
desigual e diversificado, é um exemplo do quanto a experiência juvenil apresenta
muitas distinções, conforme podemos ver no depoimento abaixo, a respeito do
lazer juvenil na periferia da zona sul da cidade de São Paulo, extraído de uma
dissertação de mestrado (PINTO, 2018, p.97):
“Meu nome é Amanda,
tenho 21 anos, sou moradora do bairro Capão Redondo desde que nasci. No Capão,
os tipos de diversões para os jovens são escassos, além dos pancadões, há festa
particulares em que há uma aglomeração de carros (pelo menos na rua onde moro,
é normal acontecer), as músicas variam, não só toca funk, mas também toca
sertanejo, eletrônica e etc. As igrejas do bairro, sempre promovem eventos
direcionados aos jovens, na igreja que frequento (a católica São José
Operário), nos dias de domingo há um grupo de jovens, nesse grupo, os musicais
de natal e de datas comemorativas do calendário católico são montados para
serem apresentados no colégio João Pedro ou no teatro do Céu Capão Redondo. Há
outros eventos que eles chamam de "barzinho", evento de louvor, em
que há dança, comidas e bebidas e com horários definidos para que não ocorra
madrugada adentro. Os únicos eventos que costumo frequentar no bairro são as
festas juninas da igreja e festa de amigos, mas festas juninas só ocorrem entre
junho e julho. Não há uma variedade de festas ou programas culturais oferecidos
aos jovens no bairro e os que tem são mal divulgados, como os que ocorrem no
Sesc Campo Limpo e Fábricas de Cultura. Muitos simplesmente vão ao shopping
Campo Limpo, pagam um cinema que pode ser considerado caro para assistir filmes
que são tipicamente blockbusters americanos e depois ficam por ali na praça de
alimentação, comendo fast food. Às vezes gosto de ir ao cinema, mas prefiro ir
em cinemas mais afastados da minha região porque é oferecido um leque maior de
opções nacionais e latinas. Cinemas que ficam na região da paulista, ou um
pouco menos distante daqui, no Morumbi oferecem mais opções de filmes, o que
não acontece no Capão Redondo. Mas como os meios de transporte também são
complicados, é melhor ficar pela região, ir ao Shopping Campo Limpo mesmo que
seja para tomar sorvete ou ficar vagando pelos corredores. Tenho amigos que
gostam de ir ao rodeio de Itapecerica da Serra que é um município vizinho ao
bairro, cantores como Luan Santana, Wesley Safadão, Jorge e Matheus fazem shows
por volta do mês de junho e ocorrem no final de semana. Talvez seja um dos
meses mais agitados no Capão pela chegada das férias de julho e fim das provas,
é um ótimo momento para sair. Outros gostam de ir ao parque Ibirapuera, o qual
já frequentei muito. É uma boa opção para um passeio de domingo. Além disso,
frequento livrarias que ficam próximas daqui, nos bairros de interlagos e
Morumbi. Gosto de frequentar o bairro de Santo Amaro, lá encontro mais
shoppings e variedade de lojas, docerias e locais para comer. Não frequento
casas noturnas, boates ou danceterias da região e aos arredores. Não tenho
interesse, mas sei que há alguns bem próximos.”
Referências
bibliográficas:
ARIÈS. Philippe. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro: LTC, 1978.
NOVAES, Regina. Os jovens de hoje: contextos, diferenças e trajetórias. In.
ALMEIDA, Maria Isabel, EUGENIO, Fernanda. Culturas
juvenis: novos mapas do afeto. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.
PEREIRA,
Alexandre. Muitas palavras: a discussão
recente sobre a juventude nas Ciências Sociais. Ponto Urbe [Online], 1 |
2007, posto online no dia 30 Julho 2007, consultado 01 Outubro 2016. URL: http://pontourbe.revues.org/1203;
DOI 10.4000/pontourbe.1203
PEREIRA, Alexandre. “A maior zoeira” na escola: experiências juvenis na periferia de São
Paulo. 1º Edição. São Paulo: Editora Unifesp, 2016.
PINTO,
Felipe de Souza Entre sociais, rolês, parties e bailes: uma etnografia dos
entretenimentos juvenis no Capão Redondo. Dissertação de Mestrado, Programa de
Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo, 2018
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